O cancro da mama é uma doença frequentemente associada às mulheres, mas que também pode afectar os homens, embora seja menos comum. Por falta de informação, muitos homens desconhecem os sinais de alerta, desvalorizam alterações no peito ou procuram ajuda médica tardiamente, dificultando o tratamento da doença.
É precisamente para quebrar mitos, combater o preconceito e promover uma cultura de prevenção que realizamos esta entrevista, procurando esclarecer as principais dúvidas sobre os factores de risco, os sinais e sintomas, o diagnostico e a importância do acompanhamento médico.
Para nos ajudar a compreender melhor esta realidade, acompanhe a entrevista com a Doutora Jéssica Sanches Campos Corujo, especialista em Cirurgia Geral e Coordenadora da Unidade de Oncologia do hospital Militar Principal/ Instituto Superior.
P:Doutora Jéssica Corujo, o que é o cancro da mama e como se manifesta nos homens?
R: O cancro da mama é um tumor maligno que nasce nas células da glândula mamária, geralmente nos canais que conduzem o leite (carcinoma ductal). Os homens também têm tecido mamário, embora em pequena quantidade, situado por trás do mamilo e da aréola. Nos homens, a doença manifesta-se quase sempre como um nódulo (caroço) duro, indolor, localizado por baixo ou junto ao mamilo, habitualmente só de um lado. Pode acompanhar-se de retracção do mamilo, saída de líquido ou sangue pelo mamilo, feridas na pele ou gânglios aumentados na axila.
P:Sendo uma doença frequente associada às mulheres, por que razão também pode surgir aos homens?
R:Porque o homem também tem glândula mamária. Até à puberdade, a mama do menino e da menina são praticamente iguais; depois, nas mulheres, os hormónios femininas fazem a glândula desenvolver-se e, nos homens, ela fica pequena, mas não desaparece. Onde há células mamárias, pode haver cancro. É muito menos frequente no homem porque ele tem menos tecido mamário e menos exposição ao estrogénio, mas o risco não é zero. Aliás, a maioria dos cancros da mama no homem é hormona dependente, ou seja, cresce sob estímulo dos estrogénios que o homem também produz em pequena quantidade.
P:Qual é a incidência do cancro da mama na população masculina?
R:Em todo o mundo, o cancro da mama masculino representa cerca de 1% de todos os casos de cancro da mama. É uma doença rara, mas real. Em Angola, segundo as estimativas mais recentes da Agência Internacional de Investigação do Cancro (IARC/GLOBOCAN), o cancro da mama é o cancro mais frequente no país, com cerca de 4 600(quatro mil e seiscentos) novos casos e 2 100(dois mil e cem) mortes por ano. Em Luanda, os registos de base hospitalar coordenados pelo Instituto Angolano de Controlo do Câncer contabilizaram cerca de 20 000 (vinte mil), casos de cancro entre 2012 e 2025; o cancro da mama foi o mais frequente na mulher, com mais de 4 500(quatro mil e quinhentos) casos, e foram registados também cerca de 50 (cinquenta) casos em homens, ou seja, cerca de 1 em cada 100 casos de cancro da mama, tal como no resto do mundo. No Hospital Militar Principal, entre 2025 e 2026, registámos 17 casos de cancro da mama, dos quais, 1 num homem.
P:Doutora, quais são os principais factores de risco para o desenvolvimento desta doença?
R:Os principais factores de risco são:
• Idade: a maioria dos casos surge depois dos 60 anos;
• História familiar de cancro da mama, do ovário ou da próstata, em homens ou mulheres da família;
• Mutações genéticas hereditárias, sobretudo no gene BRCA2 e, em menor grau, BRCA1, PALB2 e CHEK2;
• Excesso de estrogénio no organismo: obesidade, doenças do fígado (como a cirrose), consumo excessivo de álcool e uso de medicamentos ou hormonas que contenham estrogénios;
• Síndrome de Klinefelter, uma alteração genética rara;
• Doenças ou lesões dos testículos;
• Exposição prévia do tórax a radiação.
Ter um ou mais factores de risco não significa que a pessoa vai ter cancro, mas exige mais atenção.
P:Quais são os primeiros sinais de alerta a que os homens devem estar atentos?
R:O sinal mais comum é um caroço duro, geralmente indolor, por baixo do mamilo ou da aréola, de um só lado. Também devem chamar a atenção: o mamilo que fica virado para dentro, a saída de líquido ou sangue pelo mamilo, uma ferida no mamilo ou na pele da mama que não cicatriza, e um caroço na axila. Qualquer destas alterações que dure mais de duas a três semanas deve levar o homem a uma consulta.
P:O aparecimento de um caroço na mama masculina significa necessariamente cancro?
R: Não. A causa mais frequente de aumento da mama no homem é a ginecomastia, que é um crescimento benigno do tecido mamário, muitas vezes dos dois lados, mole, por vezes dolorosa, relacionada com alterações hormonais, excesso de peso, alguns medicamentos ou doenças do fígado. Também podem surgir quistos ou lipomas. Mas um caroço duro, indolor, de um só lado, fixo ou que vai crescendo, deve ser avaliado por um médico. Só o médico, com os exames adequados, pode dizer se é benigno ou maligno. O erro é esperar.
P:Doutora, as alterações no mamilo ou na pele, podem indicar a presença da doença?
R: Sim. Além do caroço, devemos estar atentos a: mamilo retraído ou desviado; saída de líquido, sobretudo com sangue, pelo mamilo; vermelhidão, descamação ou ferida no mamilo ou na aréola; pele da mama engrossada, com aspecto de "casca de laranja"; ferida que não cicatriza; e gânglios aumentados na axila. Nos casos avançados podem surgir dores ósseas, cansaço, perda de peso ou falta de ar, sinais de que a doença já se espalhou.
P:A partir de que idade os homens devem estar atentos a estas alterações?
R: Todos os homens devem conhecer o próprio corpo, em qualquer idade. O risco aumenta com a idade e a maioria dos casos aparece depois dos 50–60 anos, por isso a partir dos 50 anos a atenção deve ser maior. Os homens com familiares directos com cancro da mama, do ovário ou da próstata, ou com mutação genética conhecida, devem estar atentos mais cedo, idealmente a partir dos 35 anos, e falar com o seu médico sobre vigilância regular. Não há rastreio por mamografia para todos os homens, como há para as mulheres; por isso, a auto-observação e a consulta perante qualquer alteração são fundamentais.
P:Como é feito o diagnóstico do cancro da mama nos homens?
R: O diagnóstico começa na consulta: o médico ouve a história clínica e familiar e faz o exame físico das duas mamas e das axilas. Se houver alteração suspeita, pedem-se exames de imagem e, a seguir, a biópsia, que é o único exame que confirma o cancro. No Hospital Militar Principal/Instituto Superior (HMP/IS) já temos este circuito montado: consulta de mastologia ou oncologia cirúrgica, imagiologia, biópsia e resultado histológico completo.
P:Que exames são necessários para confirmar a existência da doença?
R: A mamografia e ecografia mamária, para ver o nódulo e as axilas;
• Biópsia com agulha grossa (biópsia por agulha), que retira um pequeno fragmento do nódulo para análise ao microscópio — é este exame que confirma o diagnóstico;
• Imunohistoquímica, que mostra se o tumor é sensível às hormonas (receptores de estrogénio e progesterona) e à proteína HER2, e que orienta o tratamento;
• Exames de estadiamento, para saber se a doença se espalhou: análises, radiografia ou TAC do tórax e abdómen, cintigrafia óssea, conforme o caso;
• Teste genético (BRCA e outros genes), que deve ser proposto a todos os homens com cancro da mama.
P:Quais são os tratamentos disponíveis para os homens diagnosticados com cancro da mama?
R: O tratamento é semelhante ao da mulher e é decidido em reunião multidisciplinar, com cirurgião, oncologista, radioterapeuta, patologista e imagiologista.
No HMP/IS discutimos os casos em reuniões semanais de teleoncologia com parceiros nacionais e internacionais.
As opções são:
• Cirurgia: geralmente mastectomia (retirada da mama) com avaliação dos gânglios da axila (biópsia do gânglio sentinela ou esvaziamento axilar);
• Hormonoterapia: como mais de 90% dos tumores masculinos são sensíveis às hormonas, o tamoxifeno durante 5 a 10 anos é um pilar do tratamento;
• Quimioterapia, antes ou depois da cirurgia, conforme o caso;
• Terapia dirigida anti-HER2, quando o tumor tem essa característica;
• Radioterapia, em casos seleccionados.
Com a abertura da Unidade de Oncologia do HMP/IS, iniciaremos a realização de quimioterapia no nosso hospital, podem assim acompanhar o doente desde o diagnóstico até ao fim do tratamento.
P:Quando detectado precocemente, quais são as possibilidades de tratamento e de cura?
R: São muito boas. Quando o cancro é descoberto numa fase inicial, ainda pequeno e sem atingir os gânglios, a sobrevivência aos 5 anos é superior a 90% e muitos doentes ficam curados. O problema é que, nos homens, o diagnóstico costuma ser feito mais tarde do que nas mulheres, porque não esperam ter esta doença e demoram a procurar ajuda. Em Angola, a maioria dos cancros da mama ainda chega ao hospital em fase avançada, quando o tratamento é mais agressivo, mais caro e com menos hipóteses de cura. O diagnóstico precoce é a diferença entre curar e controlar a doença.
P:Doutora, o cancro da mama nos homens pode ser hereditário?
R: Pode sim. Cerca de 10 a 20% dos homens com cancro da mama têm uma mutação genética hereditária, sobretudo no gene BRCA2. Por isso, todos os homens com cancro da mama devem fazer aconselhamento e teste genético. E isto tem consequências para a família: se o homem tiver a mutação, as filhas, irmãs e outros familiares podem também tê-la e ter maior risco de cancro da mama, do ovário, da próstata e do pâncreas. O cancro da mama num homem é, muitas vezes, um alerta para toda a família.
P:Existem medidas que os homens podem adoptar para reduzir o risco de desenvolver está doença?
R: Alguns factores, como a idade ou a genética, não podemos mudar. Mas podemos reduzir o risco com: manter um peso saudável; fazer actividade física regular; evitar ou reduzir o consumo de álcool; não fumar; não usar hormonas ou anabolizantes sem indicação médica; tratar as doenças do fígado; e, para quem tem história familiar, informar o médico e fazer vigilância. E, acima de tudo, conhecer o próprio corpo e ir à consulta perante qualquer alteração.
P:Qual é a importância de conhecer o próprio corpo e procurar assistência médica perante alterações suspeitas?
R: É fundamental. Quem conhece o seu corpo percebe mais cedo quando algo muda. Recomendo que o homem, durante o banho, uma vez por mês, apalpe as duas mamas e as axilas e observe os mamilos ao espelho. Se notar um caroço, uma ferida, saída de líquido ou o mamilo retraído, deve procurar o médico. Não é para ter medo, é para agir a tempo: um cancro descoberto cedo trata-se com menos sofrimento e com muito mais hipóteses de cura.
P:Doutora, temos registo de algum caso diagnosticado a nível das FAA?
R: Sim. É um caso raro, mas que confirma que esta doença também existe entre os nossos homens fardados, e é por isso que esta sensibilização é tão importante.
P:Quantos casos temos registados em efectivos das FAA (Mulheres e Homens)?
R: Desde que começamos com o serviço oncológico no HMP/IS, em 2025, registámos 17 casos de cancro da mama, sendo 7 em 2025 e 10 em 2026, dos quais, 16 em mulheres e 1 em homem. O cancro da mama está entre os cinco cancros mais frequentes no nosso hospital, a seguir os cancros da próstata, da cabeça e do pescoço, do colo do útero e do esófago. As doentes acometidas tinham entre 34 e 70 anos, o que mostra que em Angola esta doença atinge mulheres mais jovens do que na Europa. O dado mais preocupante é que todos os casos, chegaram a nossa Unidade tardiamente e em estado avançado da doença.No entanto, estamos a consolidar o registo oncológico hospitalar do HMP/IS, para conhecermos com rigor a realidade das FAA e planearmos melhor os cuidados.
P:Existem programas de acompanhamento e apoio psicológico para militares diagnosticados com a doença?
R: Sim, existe. O apoio psicológico faz parte do tratamento oncológico, porque o diagnóstico do cancro afecta o doente e toda a família. Para os homens com cancro da mama, a situação é ainda mais complexa, pelo facto de se associar a situação, o peso do estigma de ter uma "doença comum em mulher" e as alterações da imagem corporal após a cirurgia. O nosso objectivo, com a Unidade de Oncologia, é acompanhar o militar e a sua família durante todo o percurso: diagnóstico, tratamento e seguimento.
P:Doutora, o preconceito e a vergonha podem levar os homens a procurarem ajuda médica tardiamente?
R: Sim, muito. Muitos homens não sabem que podem ter cancro da mama e, quando notam um caroço, sentem vergonha de falar sobre a mama ou têm receio de serem vistos como menos homens. Outros acham que é apenas "gordura" e vão adiando. Este atraso faz com que, nos homens, a doença seja muitas vezes diagnosticada em fase mais avançada. Por isso é importante falar abertamente: o cancro da mama não escolhe sexo, e procurar ajuda é um acto de responsabilidade e de coragem.
P:Que recomendações deixa aos homens e mulheres que identificam um caroço ou outra alteração na mama?
R: Não entrar em pânico, mas também não esperar. Se notar um caroço, uma ferida, saída de líquido pelo mamilo ou outra alteração que dure mais de duas a três semanas, procure uma consulta médica. Não aplique tratamentos caseiros ou tradicionais, que só fazem perder tempo. Não tenha vergonha de falar com o médico. No HMP/IS a consulta está disponível para os militares, as suas famílias e os beneficiários; estamos preparados para avaliar, fazer a biópsia e encaminhar o tratamento.
P:Que mensagem gostaria de transmitir a população masculina sobre a importância do diagnóstico precoce?
R: O cancro da mama também atinge homens. É raro, mas existe, e quando é descoberto cedo tem cura. Conheça o seu corpo, não ignore os sinais e não deixe que a vergonha ou o preconceito decidam por si. Procurar o médico a tempo pode salvar a sua vida.
P.Doutora em jeito de conclusão que conselho que deixa aos homens para protegerem a sua saúde?
R: Cuidar da saúde é também uma missão. O meu principal conselho é: vá ao médico regularmente, mesmo quando se sente bem, e não ignore os sinais do seu corpo. Mantenha um estilo de vida saudável — alimentação equilibrada, exercício físico, pouco ou nenhum álcool e não fumar — conheça a história de saúde da sua família e partilhe-a com o médico. Um militar saudável protege-se a si, à sua família e à Nação.
Agradecemos à doutora Jéssica Sanches Campos Corujo, especialista em Cirurgia Geral e Coordenadora da Unidade de Oncologia do hospital Militar Principal/ Instituto Superior, pela disponibilidade, pelos valiosos esclarecimentos e pela partilha de informação tão importante sobre o cancro da mama nos homens.
A sua contribuição foi fundamental para reforçar a consciencialização sobre esta doença, desmistificar preconceitos e destacar a importância da prevenção, do diagnostico precoce e da procura atempada de assistência médica e medicamentosa.
No âmbito do Outubro Rosa, fica o apelo para que os homens também estejam atentos a sua saúde, porque a informação, a atenção aos sinais e diagnóstico precoce podem fazer a diferença na luta contra o cancro da mama.